Brasil
24 de fevereiro de 2022 Angolano morador da zona leste fala do preconceito vivido por imigrantes africanos
O professor Alceu Paulo Lunganga conta de sua experiência vivendo oito anos em São Paulo e destaca casos de racismo que sofreu

Alceu Paulo Lunganga conta sobre casos de racismo no Metrô

POR RENAN CAVALCANTE


O angolano e professor universitário Alceu Paulo Lunganga, 47, imigrou para o Brasil por vontade própria, para estudar tecnologia da informação. São oito anos vivendo em São Paulo, mas ainda assim, ele diz que deixar o país de origem não é uma escolha fácil. Ainda mais quando se é um imigrante africano. 


“Vim para aumentar meus conhecimentos. Felizmente hoje sou professor universitário de formação. E estou empregado, diferente de muitos companheiros que encontram-se desempregados lamentavelmente”, conta Alceu, morador do distrito de Artur Alvim, na zona leste.  


Para ele, o Brasil é um país acolhedor que em muito lembra a Angola. “Nas periferias do meu país, as pessoas na sua maioria são mais solidárias umas com as outras. E aqui também tenho constatado isso”, analisa.


No entanto, episódios recentes como o caso de Moïse Kabagambe – congolês de 24 anos morto no Rio de Janeiro no primeiro mês do ano – refletem o preconceito vivido por imigrantes africanos no país.  


O assassinato brutal de Moïse fez com que a Coalizão Negra por Direitos denunciasse o Brasil à ONU (Organização das Nações Unidas), pedindo medidas contra o racismo e a xenofobia. A reação, tanto da população quanto da polícia, teria sido diferente se Moïse fosse um imigrante de origem branca, aponta a Coalizão. 


Sobre Alceu, mesmo tendo a experiência de acolhimento desde quando chegou, ele também não escapou de sofrer casos de racismo e xenofobia por parte de brasileiros. Ele relata dois casos que aconteceram no Metrô de São Paulo.


“Ia para o trabalho e de repente alguém soltou um pum no vagão. Começaram olhares e conversinhas e percebi que estavam falando de mim porque apontavam o dedo”, relembra. Constrangido, o professor lembra que preferiu sair dali. “É chato quando você é acusado de algo que você não fez. Para evitar mais atritos e outras situações negativas, preferi trocar de vagão”, lamenta.


O outro caso que Alceu relata foi mais direto e violento. Ao oferecer seu assento para uma mulher que aparentava estar com dores no joelho, ele recebeu como resposta cheia de racismo. “A primeira coisa que ouvi foi: ‘Eu não sento onde você senta. Está me estranhando?’ E aí começou o horror de discriminações e xingamentos. Com vários palavreados pejorativos” 


A situação só não ficou pior porque outras pessoas interviram. “Minha sorte é que no vagão onde estávamos havia pessoas de bom coração. E se indignaram com o comportamento da mulher e me defenderam.”


Esses casos não foram os únicos sofridos por ele. “São várias situações que levaria até horas, dias ou mesmo semanas para terminar de contar. Infelizmente”, desabafa.


Essa é a realidade de muitos outros imigrantes ou refugiados que vivem por aqui. São Paulo é o terceiro estado com mais decisões referentes a refúgio, perdendo apenas para Roraima e Amazonas, que fazem fronteira com a Venezuela. 


E um levantamento feito em 2019 pela Caritas Arquidiocesana de São Paulo junto com a Acnur, a agência da ONU para refugiados, mostra que 55% dos entrevistados moravam na zona leste da cidade, região onde reside Alceu Paulo Lunganga. 


Atualmente 1,3 milhão de imigrantes residem no Brasil. E as solicitações de reconhecimento da condição de refugiado também aumentaram, passando de cerca de 1,4 mil, em 2011, para 28,8 mil, em 2020.


Os dados fazem parte do projeto “2011-2020: Uma década de desafios para a imigração e refúgio no Brasil” e foram produzidos pelo OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais).


Ainda em âmbito nacional, de acordo com informações do Conare (Conselho Nacional para os Refugiados), nos últimos cinco anos foram mais de 75 mil decisões sobre pedidos de refúgio no país, muitos deles vindos de países do continente africano. Dos dez países com o maior número de refugiados no Brasil, cinco ficam na África.


São esses imigrantes e refugiados negros os que acabam se tornando alvos frequentes, afirma Alceu. 


“Todos os dias e em todos os lugares, basta colocar o pé para fora. Não importa, se houver imigrantes de várias origens no momento, o mais visado sempre é o africano de pele escura. Quem chama isso de vitimismo é porque não vivenciou.”



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