África
23 de fevereiro de 2022 Baidoa, último refúgio para os que fogem da seca na Somália
Quase 13 milhões de pessoas passam fome na região sul da Somália, segundo a ONU



Sob um calor extremo, Salado Adan Mohamed, mãe de três filhos, dá os últimos retoques em seu refúgio improvisado, construído com galhos e pedaços de pano. Ela acaba de chegar à cidade de Baidoa, na Somália, o último refúgio para os que fogem da pior seca no país em uma década.


Ao lado dos três filhos, a mulher de 26 anos caminhou durante cinco dias "sem comer" para percorrer os 70 quilômetros que separam seu vilarejo de Baidoa.


Ela se instalou em Muuri, um dos 500 acampamentos de deslocados da cidade, onde nas últimas semanas foram construídos de maneira apressada muitos 'aqals', cabanas tradicionais em forma de cúpula. 


Desesperadas, famintas e com sede, cada vez mais pessoas viajam a Baidoa a partir das zonas rurais do sul da Somália, uma das áreas mais afetadas pela seca que afeta a região do Chifre da África.


De acordo com o Programa Mundial de Alimentos da ONU, quase 13 milhões de pessoas, em sua maioria trabalhadores rurais, passam fome na região: 5,7 milhões na Etiópia, 2,8 milhões no Quênia e 4,3 milhões na Somália, um quarto da população do país.


Na Somália, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) calcula que mais de 554.000 pessoas abandonaram suas casas em busca de água, alimentos e pasto.


Salado Adan Mohamed afirma que ela e o marido viram suas plantações devoradas pelos enxames de gafanhotos que assolaram muitas regiões do leste da África nos últimos anos. Em poucos meses, o pouco que restava foi destruído quando as chuvas não aconteceram pela terceira vez consecutiva, desde o fim de 2020.


"Nós tínhamos três camelos que morreram durante a temporada de seca, 10 cabras - comemos algumas, outras morreram e o restante foi vendido - e os cinco bois morreram por falta de água e pasto", disse. "Não resta mais nada".


Com o marido e os filhos, Mohammed partiu de seu vilarejo natal para Baidoa, a última esperança para muitos. Mas o marido, que tem tuberculose e estava muito frágil para prosseguir, retornou e, desde então, ela não tem notícias dele.


As zonas de campo que cercam Baidoa estão sob controle do grupo islamita Al Shabaab, vinculado à Al-Qaeda, que manteve durante anos esta cidade no centro da insurgência, antes de sua expulsão em 2012 pelas forças lideradas pela Somália.


Mas a insegurança persistente significa que quase não é possível enviar ajuda à cidade. Mesmo no acampamento de Muuri, Mohamed afirma que luta para garantir ao menos uma refeição ao dia para os filhos. "Às vezes temos algo para comer, às vezes não(...) Se não tem o suficiente, me sacrifico por meus filhos", afirma, cansada. 


O espectro de 2011


As organizações humanitárias alertam há semanas para o agravamento da situação no Chifre da África e temem a repetição da fome de 2011 na Somália, que matou 260.000 pessoas.


As chuvas insuficientes desde o fim de 2020 foram um golpe fatal para os moradores que já sofriam com a invasão dos gafanhotos entre 2019 e 2021 e a pandemia de covid-19.


"Nós tínhamos nossos estoques habituais de sorgo, mas consumidos nos últimos três anos. Agora acabaram", afirma Ibrahim Mohamed Hassan, um homem cego de 60 anos que caminhou quase 60 quilômetros com sua família até o acampamento de Garas Goof, em Baidoa. Ele disse que 30 das 50 famílias de seu vilarejo fugiram.


Na última década, Baidoa, que fica 250 quilômetros ao nordeste da capital Mogadíscio, se acostumou com grandes fluxos. Ao menos 60% de sua população - atualmente calcula entre 700.000 e 800.000 pessoas - é de deslocados e o número de assentamentos informais disparou de 77 em 2016 para 572 atualmente.


Imprensa Scalabriniana com UOL



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