Artigos
2 de fevereiro de 2022 Eu só queria trabalho e pão
Há muito o ódio contamina o ar. Respira-se um clima de divisão - um "nós" contra "eles" - toma conta de todos, a começar pelas mentiras de um desgoverno que, em lugar de proteção e acolhida, semeia discórdia e violência.



Nasci no Congo, me chamo Moise. Estou aqui porque a violência me expulsou de minha pátria, onde estão enterrados os meus ancestrais.


Fugi e busquei o Brasil. Esperava encontrar a paz, o trabalho e o pão para toda minha família.


Procurei transformar a fuga em nova busca. Sonhava com um terra em que eu pudesse encontrar um solo amigo e pátrio.


Aqui, após tantas penas e dificuldades, encontrei algo para fazer. Comecei a trabalhar.

Mas a violência e a morte me esperavam na esquina, ou melhor, no quiosque da Tijuca, Rio de Janeiro.


De onde vem tanto ódio e agressividade contra os congoleses, contra os imigrantes, contra os estrangeiros, contra os que falam outras línguas e têm pele negra? De onde vem o racismo, o preconceito e a discriminação?


Não, não foram apenas alguns rapazes que me tiraram a vida. Há muito o ódio contamina o ar. Respira-se um clima de divisão - um "nós" contra "eles" - toma conta de todos, a começar pelas mentiras de um desgoverno que, em lugar de proteção e acolhida, semeia discórdia e violência. Depois a mídia, as redes sociais e muita gente enfurecida parece se abater sobre nós, negros e estrangeiros. Da fúria do Congo, passei a conhecer a fúria de uma nação dividida, polarizada, ainda por cima marcada pela pandemia, com seu rastro de mortes, horrores e enlutados. Por isso morri, senhores e senhoras, morri porque lutei para viver. Morri porque busquei sonhos, com fé e esperança. Morri para que outros migrantes possam ter vida e direitos, com justiça e paz.


Que o trabalho e o pão não sejam tão amargos para outros congoleses, sírios, angolalos, vevezuelanos, haitianos, afegãos, e tantos outros migrantes. Foi o ódio cego e irresponsável que tiraram a minha vida. Foi uma sociedade indiferente e desgovernada que me tirou a vida. Mas os migrantes haverão de mostrar que não querem outra coisa senão trabalho, pão, paz e justiça para si e suas famílias. E para todos os países, sejam eles de origem, de trânsito ou de destino. Nomes, rostos, línguas e histórias diferentes haverão de mostrar que as diferenças, longe de nos dividir e nos empobrecer, só podem nos enriquecer. Em nome dos migrantes de todo mundo, lutamos por uma cidadania que esteja acima de qualquer fronteira. O mundo é a pátria de cada pessoa humana, pois é ele que nos dá o pão e a paz. Não condeno apenas as mãos que me golpearam até a morte. Condeno os que jogam os pobres e migrantes contra os próprios pobres e migrantes, com suas leis de segurança nacional, com sua economia voltada para lucro, consumo, acumulação e exclusão social. Toda pessoa humana tem direito a migrar, a trabalhar e a lutar por seu sonho de melhor futuro. Vida em primeiro lugar!



ver mais notícias


Receba nossa newsletter Assine nossa newsletter e receba novidades por e-mail
Seu E-mail foi cadastrado com sucesso!
OpsSeu E-mail já está cadastrado em nosso newsletter!
ATENÇÃOO formato do e-mail está incorreto.
© Missionárias Scalabrinianas. Todo o conteúdo deste site é de uso exclusivo de Missionárias Scalabrinianas. Proibida reprodução ou utilização a qualquer título, sob as penas da lei. All rights reserved.