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21 de janeiro de 2022 Desigualdade mata: em jogo o futuro da humanidade e da criação
Crescentes desigualdades econômicas, de gênero e raciais, assim como as desigualdades que existem entre os países, estão destruindo o planeta



POR ÉLIO GASDA


A pandemia desmascarou a crueldade e a violência do sistema econômico. A desigualdade social mata! Está destruindo nossas sociedades. Sociedades desiguais são sociedades violentas.


O FMI, o Banco Mundial e o Fórum Econômico Mundial estimam que a pandemia intensificou a brutal desigualdade em todo o mundo. A distância entre nações ricas e pobres aumentou pela primeira vez em uma geração.


O custo da profunda desigualdade é pago em vidas humanas. É o que demonstra o relatório A Desigualdade Mata, da Oxfam.


Atualmente, 10 homens mais ricos do mundo têm seis vezes mais riqueza que os 3,1 bilhões de pessoas mais pobres. Se cada um desses homens gastassem um milhão de dólares por dia, seriam necessários 414 anos para gastar suas fortunas. Um novo bilionário surge a cada 26 horas desde o início da pandemia, enquanto mais de 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza. A fome mata mais de 2,1 milhões de pessoas a cada ano. A desigualdade contribui para a morte de pelo menos 21.300 pessoas por dia. Uma pessoa a cada quatro segundos. Genocídio!


A riqueza bilionária atingiu seu nível mais alto. Dinheiro não falta. Durante a pandemia, os governos injetaram trilhões no sistema econômico. Grande parte desse estímulo foi para os mercados financeiros e, de lá, para o patrimônio dos bilionários. Novos bilionários surgiram enquanto antigos bilionários adicionaram mais e mais bilhões ao seu patrimônio. Nesse meio tempo, mais de 17 milhões de pessoas morreram de Covid-19. Barbárie!


Milhões de pessoas morreram porque vacinas não foram amplamente distribuídas. Morreram porque não receberam cuidados hospitalares. Morreram porque não podiam pagar pelo atendimento particular. Pessoas morreram porque perderam seus empregos. Morreram porque não conseguiam comprar comida. Pessoas morreram porque seus governos não forneceram proteção social. E enquanto morriam, pessoas ricas ficaram ainda mais ricas. No Brasil, os 20 maiores bilionários têm mais riqueza do que 128 milhões de brasileiros (60% da população). Escandaloso e abominável.


O apartheid vacinal manchou 2021. A estratégia de privilegiar os lucros em vez de pessoas não é apenas injusta, mas genocida. Grandes farmacêuticas mantem o controle das tecnologias das vacinas. Verbas públicas investidas em vacinas aumentaram os lucros das empresas farmacêuticas. A pandemia criou novos bilionários da indústria farmacêutica em vez de vacinar pessoas. Bestialidade perversa.


Falta coragem e vergonha na cara para enfrentar a desigualdade, a riqueza e o poder dos ricos sem compromisso algum com a humanidade. Há dinheiro mais do que suficiente para resolver a maior parte dos problemas do mundo.


A comunidade internacional é ficção. Existe um abismo. Em julho de 2021, Elon Musk foi com seus amigos ao espaço em seu foguete de luxo, enquanto milhões morriam porque não tinham acesso a vacinas ou não podiam comprar comida. O homem mais rico do mundo recebeu 95 bilhões de dólares em subsídios governamentais. Só o aumento da fortuna de Bezos, durante a pandemia, poderia pagar para que todos na Terra fossem vacinados com segurança.


As crescentes desigualdades econômicas, de gênero e raciais, assim como as desigualdades que existem entre os países, estão destruindo o planeta. Isso não acontece por acaso. É violência econômica cometida por um sistema alicerçado na desigualdade que se impôs sobre a humanidade. O capitalismo é brutalmente violento.


“Quem governa? O dinheiro. Como governa? Com o chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, social, cultural e militar que gera mais violência que não acaba nunca. Quanta dor, quanto medo! Há um terrorismo de base que emana do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade” (Papa Francisco, 3º Encontro Mundial dos movimentos populares, 2016).


Um aumento da riqueza bilionária é resultado de uma economia violenta. É violência de um sistema consolidado sobre a espoliação dos pobres e a devastação da natureza.


Apenas soluções sistêmicas serão capazes de combater a violência enraizada nos fundamentos do capitalismo. Se queremos salvar vidas e estabelecer as bases para um mundo civilizado. Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes. Podemos escolher entre uma economia violenta ou uma economia centrada na dignidade humana, na igualdade e na justiça. Enfim, economia civilizada.


“Quando a obsessão de possuir e dominar exclui milhões de pessoas dos bens primários; quando a desigualdade econômica e tecnológica é tal que rasga o tecido social; quando a dependência do progresso material ilimitado ameaça a casa comum, então não podemos ficar de braços cruzados assistindo. Não, isso é desolador” (papa Francisco).


A humanidade vive tempos sombrios. Para tempos tenebrosos, profetas corajosos! Não fiquemos de braços cruzados.


*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia'



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